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Aliar qualidade de vida a moradias sustentáveis e ambientalmente corretas pode parecer algo distante da realidade para a maioria das pessoas. Principalmente para as que moram em países em desenvolvimento e pertencem a uma classe social desfavorecida. Outra vertente também polêmica é convencer o poder público e a sociedade de que as construções civis com recursos sustentáveis são mais rentáveis economicamente e que, realmente, são necessárias para mantermos a saúde do planeta. Mas o fato é que o conceito de cidades sustentáveis está entre as principais discussões de especialistas nacionais e internacionais preocupados não somente com o contexto ambiental, mas com o social, cultural e econômico.
Os impactos ambientais que as construções civis causam no planeta transformaram o setor, considerado economicamente como macro-complexo, no que mais consome individualmente os recursos naturais da Terra. Christer Sjöström, presidente do Conselho Internacional de Estudos, Pesquisas e Documentações de Construção (CIB), e também professor associado à Divisão de Materiais Tecnológicos, ao Centro de Construções Ambientais e ao Instituto Royal de Tecnologia, já afirmava em 1996, em seu livro Durability of building Materials and Components 7: a construção civil consumia algo entre 20% a 50% do total de recursos naturais utilizados pela sociedade. Hoje, novos estudos indicam que essa porcentagem já subiu para 75%, sendo 50% de energia e 12% de água, além de gerar cerca de 60% de resíduos sólidos e 35% de carbono.
Por aí, já percebemos a relevância de se pensar em sustentabilidade nas moradias e nos empreendimentos comerciais. Aperfeiçoar o setor de construção civil quanto ao reaproveitamento de resíduos (reciclagem) e viabilizar as construções sustentáveis devem ser medidas emergenciais, tanto por incentivo de políticas públicas, quanto privadas. Afinal, já está mais que estampado nas páginas de jornais, na televisão, rádio, revistas e estudos, o agravamento das consequências que as alteações climáticas causam no mundo inteiro. A mudança de paradigma é, então, o grande desafio quando o tema é “ser sustentável”. A palavra “construir” deve emergir, realmente, de dentro para fora.
Vanderley Moacyr John, engenheiro civil, pós-doutor em Engenharia na Suécia, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil, Universidade de São Paulo (USP) e também conselheiro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), atenta em sua pesquisa Desenvolvimento sustentável, construção civil, reciclagem e trabalho multidisciplinar, que as reservas mundiais de cobre, por exemplo, têm vida útil estimada de pouco mais de 60 anos.
Cita também o exemplo da cidade de São Paulo quanto ao esgotamento das reservas próximas da capital, que já fez com que a areia natural fosse transportada a distâncias superiores a 100 km, implicando em enormes consumos de energia e geração de poluição. De acordo com o estudo Construction and the environment: fact and figures (Industry and Environment), cerca de 80% da energia utilizada na produção de um edifício é consumida na própria produção e no transporte de materiais.
Tomando como exemplo a Alemanha, que segue hoje práticas ecologicamente corretas, devido ao grande impacto que já causou com sua elevada produção de gases de efeito estufa, outros países também já investem em ideias sustentáveis e movimentam a economia. O que é verdadeiramente atraente, quando o assunto em pauta é a crise, pois a construção civil é responsável por 40% da formação bruta de capital e enorme massa de emprego, o que representa 10% do PIB Mundial vindo do mercado imobiliário. Época extremamente propícia para se rever conceitos quanto aos gastos. Economia, então, é a palavra-chave. E dessa vez, ela está ao lado direito do meio ambiente.
URBANISMO SUSTENTÁVEL
Duas são as vertentes na construção civil: o urbanismo e a construção, propriamente dita, do prédio ou casa, segundo Dilnei Silva Bittencourt, diretor de engenharia da Cidade Universitária Pedra Branca, sediada na região da Grande Florianópolis, em Santa Catarina. A cidade-bairro é uma aposta da ideia de um novo urbanismo e foi construída com o desafio de ser totalmente sustentável em até 15 anos. Atualmente, moram quatro mil pessoas no local e a cidade gera quatro mil empregos diretos, sendo que no futuro a expectativa é que esses números subam para 30 mil moradores e 15 mil postos de trabalho. Dentre os conceitos de sustentabilidade apontados pelo engenheiro, a cidade, em primeiro lugar, deve interagir com as pessoas. “Existe uma forte corrente no mundo para que as cidades sejam sustentáveis”, afirma Dilnei. O lema da Pedra Branca é: morar, trabalhar, estudar e se divertir num mesmo lugar. Numa área de 250 hectares, a cidade é uma proposta de um conjunto de ideias formatadas nos Estados Unidos na década de 80. Segundo Dilnei, a intenção é zerar o gás, a energia e a água. “Não adianta fazer um prédio verde numa cidade impactante, que polui mais”, diz. Para ele, a prática do prédio verde sozinho é paliativa.
Pedestres
Priorizar a caminhada e deixar os veículos em casa. Esse o carro chefe da proposta do novo urbanismo sustentável, movimento que já existe há 30 anos. “As cidades perderam sua identidade, suas características próprias. Em Santa Catarina, temos quatro milhões de carros nas ruas. Em Florianópolis, já estamos beirando os 500 mil automóveis, o que interfere diretamente para a detonação das cidades, já que estão inchadas. Os veículos contribuem com 70% das emissões de gases de efeito estufa. O automóvel é um transporte coletivo burro”, relata o engenheiro civil. Dilnei Bittencourt conta ainda que de 100% da energia contida na gasolina, apenas 5% é usada para mover o passageiro. O restante vai para o lixo, melhor dizendo, para a atmosfera.
Além de privilegiar os pedestres, outros oito princípios completam o novo urbanismo. O uso misto propõe uma mistura de atividades num mesmo local, como moradia, comércio, escritórios, lazer e educação. Dessa forma, o movimento torna-se constante e o “espírito da cidade” vivo. O que evita criar lugares isolados, fato comum nos centros das cidades após o horário comercial. Segundo Dilnei, em Boston, o centro histórico da cidade foi resgatado dessa forma. Ele cita também a Dinamarca, onde as pessoas trabalham de bicicleta, e a Finlândia, como exemplos de grandes economias e modelos de construções sustentáveis.
CONSTRUÇÕES, QUALIDADE E CULTURA
Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construções Sustentáveis (CBCS), aponta a qualidade da habitação e o conforto térmico, por exemplo, como aspectos importantes na construção de casas e edifícios. Iniciativas que fazem a diferença quando o assunto é qualidade de vida. E foi pensando assim que o CBCS tornou-se membro do Sustainable Buildings and Construction Initiative (SCBI), coordenado pelo Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP). A proposta do programa consiste no impulso do governo e das indústrias da construção civil no desenvolvimento de políticas, estratégias e práticas mais limpas quanto ao uso consciente e eficiente dos recursos naturais. Uma das iniciativas a ser implementada é o desenvolvimento de projetos que focam a eficiência energética e as emissões de gás carbônico nos edifícios.
Takaoka também acredita na construção de comunidades sustentáveis e não a prática isolada de sustentabilidade. O consumo consciente da água, da energia e de materiais de construção que prolonguem a vida útil das casas são pontos estratégicos.
“Não tem planeta para todo mundo que está aí”, diz Roberto Lamberts, engenheiro civil e conselheiro do CBCS. Lamberts conta que as construções sustentáveis precisam ter qualidade, caso contrário não serão sustentáveis. Há atitudes que qualquer um pode tomar e contribuir na mudança de hábitos, como trocar as lâmpadas comuns por florescentes e a geladeira velha por uma nova energeticamente eficiente. Mas, segundo o engenheiro, o governo deveria fazer um plano mais ousado para edifícios e investir forte em fontes de energia renovável. “São dezenas de atitudes que devemos tomar, mas acho que falta desejo político no Brasil”, conclui.
Em Manaus, norte do país, os conjuntos habitacionais existentes possuem telhas do tipo Brasilit, que deixam o ambiente quente e sem circulação de ar. De acordo com Carlos Gabriel Koury, engenheiro florestal e coordenador do Programa Unidades de Conservação do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (IDESAM), o Brasil possui linhas de desenvolvimento para a promoção de energias alternativas, mas não existem programas habitacionais governamentais (conjuntos habitacionais ou linhas de financiamento) que promovam o uso dessas tecnologias. “Da mesma forma, no consumo de madeira, pesquisas mostram que o governo é o grande comprador do país, mas poucas cidades, Estados ou secretarias públicas possuem processos de verificação da procedência da madeira”, afirma.
“Não conhecemos, aqui no Amazonas, construções que reúnam todos os conceitos de sustentabilidade que estamos propondo. Apesar disso, a preocupação com as questões ambientais para moradia são levantadas já há algum tempo. Por exemplo, nos prédios da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), percebe-se que o fragmento florestal da área foi totalmente preservado: desmatou-se apenas a área necessária para infraestrutura (prédios e ruas de acesso). No caso do prédio da UFAM, existiu uma forte preocupação em adequá-lo ao clima da região. Além da arborização, que diminui a temperatura, a implantação do edifício no terreno favoreceu a circulação interna de ar. As fachadas menores estão voltadas para a direção leste-oeste, o que reduz significativamente a exposição à radiação solar e expõe as fachadas maiores aos ventos dominantes da região”, explica o engenheiro florestal.
Ventilação cruzada e outras estratégias
Carlos Koury conta que usar os recursos de ventilação cruzada, o pé direito alto e a cobertura independente dos ambientes fechados, são boas saídas e que contribuem para a boa circulação de vento. “Os grandes beirais, além de protegerem da radiação solar e das chuvas, ajudam a direcionar o ar para dentro da edificação. Sem dúvida, pode-se dizer que houve uma preocupação com o conforto térmico natural”, diz. A adequação climática na hora de construir um prédio ou uma casa é estratégia relevante. Segundo o especialista, o crescimento do número de usuários levou a inapropriadas formas de uso, o que não garante o conforto ambiental previsto no projeto. Por isso, enfatiza a necessidade de se reforçar a conscientização das pessoas que vão morar ou frequentar diariamente essas estruturas. Outro recente exemplo citado pelo engenheiro é o Instituto de Permacultura do Amazonas (IPA), que apresenta um conceito mais ecológico e integrador com o meio, envolvendo habitação sustentável, paisagismo, cultivo agroflorestal e criação de animais. A integração do sistema faz com que todo o gás utilizado na cozinha do Instituto seja proveniente do sistema biodigestor que se abastece com os resíduos de compostagem, banheiro-seco e da criação de porcos e galinhas.
O desconforto térmico na região do Amazonas, causado pelo clima quente e úmido, fez com que um trabalho de pesquisa fosse realizado para levantar as diferentes soluções e minimizar o grande incômodo que afeta a todos que vivem lá. Manaus possui temperaturas altas constantes e chuvas frequentes, o que impulsiona o desenvolvimento de uma arquitetura diferenciada, explica o engenheiro florestal. No projeto do IDESAM foram criadas estratégias como: criação de amplos beirais e varandas, protegendo as aberturas contra a incidência direta da radiação solar e das chuvas, aproveitamento da ventilação natural, trabalhando com ventilação cruzada aliada ao efeito chaminé e a criação de uma estrutura de cobertura independente dos ambientes fechados, para que o ar possa circular livremente entre as telhas e o forro. Em algumas áreas optou-se por não utilizar forro, trabalhando com pé-direito alto, facilitando assim o fluxo de ar, aproveitamento da iluminação natural, captação de água de chuva, reuso da água e redução do consumo, painéis de energia fotovoltaica, utilização de materiais renováreis e certificados, além das áreas verdes para regular o clima e abastecimento de lençol freático.
Faltam parcerias
O mestre em Arquitetura pela Facultad de Arquitectura División de Estudios de Posgrado - Universidad Nacional Autonoma de México, doutor em Urbanismo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Lino Peres Fernandes Bragança, aborda a importância da questão social nas moradias como ponto crucial no desenvolvimento de projetos de habitação. Afirma ainda que não existem parcerias entre universidades e governo. “Ainda vivemos num período autoritário. Falta uma política de médio a longo prazo para áreas habitacionais, mobilidade urbana, transporte de massa, ciclovia e transporte marítimo. Há amadorismo demais”, conta Lino. Ele enfatiza também que quando há estudos considerados relevantes para o governo, estes não são aplicado. A formalização de políticas públicas é essencial em áreas ambientais, habitacionais e em planos diretores, segundo o arquiteto. “Tem que ter um órgão de pesquisa sério e permanente, além de parcerias com as comunidades. A população precisa participar”, afirma.
O especialista aborda ainda a burocratização do sistema como um entrave na construção de uma cultura realmente sustentável, e que mecanismos financeiros podem e devem ser priorizados para incentivar a construção de novas ideias no setor. “É importante o governo apoiar com a baixa de imposto no setor de construção”, diz Lino. Outra pedra no caminho citada pelo arquiteto é a “bandeira verde de marketing” quanto ao discurso do uso de energia solar em moradias populares. “As políticas públicas devem ser concretas e não contraditórias. Painel solar é caro, muito caro! Essa onda da arquitetura verde não está clara e amarrada”, conclui.
CERTIFICAÇÕES SUSTENTÁVEIS
O que está acontecendo no Brasil no âmbito de certificação nas construções sustentáveis? Esta foi a pergunta que a Primeiro Plano fez ao engenheiro Marcos Casado, gerente técnico LEED (Leadership in Energy & Environmental Design) do Green Building Council Brasil, um dos 13 membros oficiais, desde o ano passado, do World Green Building Council. Em resposta, Casado diz que o movimento vem crescendo após o início da operação GBC Brasil, que ocorreu em junho de 2007. “Nossa missão é justamente disseminar o conceito da construção civil no país e ajudar o mercado nesta transformação rumo à sustentabilidade”, pontua.
A certificação sustentável é desenvolvida numa parceria entre o GBC Brasil e o USGBC nos Estados Unidos. Para receber a certificação LEED de prédio verde, uma construção deve seguir alguns quesitos. Hoje, segundo Casado, são 69 recomendações que valem pontos, e de acordo com o impacto daquela recomendação, valerá mais ou menos pontos. “Estes critérios levam em consideração todo o ciclo de vida do empreendimento, desde a sua concepção, construção, operação e descarte de resíduos após sua vida útil. Caso atinja no mínimo 40 pontos e atenda os sete pré-requisitos, o prédio estará de acordo com as preocupações de sustentabilidade e recebe a certificação LEED básica. A partir de 50 pontos, recebe o certificado prata. Quando chega a 60, recebe o ouro. A partir de 80 pontos atinge-se a certificação máxima, que é de platina”, afirma o engenheiro. Três empreendimentos já certificados no Brasil estão na categoria prata e o outro na categoria verde (básica), conta Marcos Casado.
Viabilidade
Indagado também sobre a viabilidade econômica nesse setor e a atual crise financeira, Marcos Casado afirma: “Sim a construção sustentável é totalmente viável. Números atualizados mostram que o custo maior, em torno de 5% a 10% da construção sustentável, vem caindo ano após ano, devido à maior aplicação destes conceitos e tecnologias, além de reduzirem significativamente os custos operacionais em torno de 25%. O que em épocas de crise é muito bom, pois são despesas fixas que pagamos mensalmente.”
O engenheiro florestal, Carlos Koury, do IDESAM, afirma que grande parte das soluções de temas como conforto térmico, iluminação natural, circulação de ar e adequação ao meio, como vegetação e terreno, são viáveis economicamente e se resolvem na concepção de um projeto. "Na execução da obra, o planejamento e a redução do desperdício também diminuem seu custo. Somente algumas das novas tecnologias apresentadas para os conceitos sustentáveis demandam um investimento inicial maior, como para energias alternativas e economia e reuso de água, mas grande parte deles são pagos com o tempo na redução dos custos de água e luz", afirma.
Materiais sustentáveis
Além das construções, os equipamentos usados no processo de edificação também contribuem para o desenvolvimento sustentável. Foi pensando assim que surgiu a Eco Máquinas, empresa sediada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, responsável pela produção de máquinas e equipamentos hidráulicos para fabricação de blocos, tijolos e pisos ecológicos. Há seis anos no mercado, entre 2007 e 2008, a empresa cresceu 50% na demanda graças à valorização das construções sustentáveis. Além de fornecer equipamentos no Brasil, a empresa também exporta para o Mercosul, África e Grécia.
Os produtos ecologicamente corretos, além de não prejudicarem o ecossistema, ajudam na redução da emissão de poluentes, na economia de energia e de recursos naturais. O tijolo ecológico é constituído por uma mistura de água, solo e um pouco de cimento. Ele possui o dobro de resistência do tijolo convencional e na sua fabricação deixa de derrubar de oito a 12 árvores de médio porte. As proporções usadas nos tijolos são estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Prêmios
O reconhecimento da inovação em produtos sustentáveis veio com prêmios como: o Marketing Empreendedores, concedido pela revista Top of Business de São Paulo, em 2008; o Prêmio Brasileiro da Qualidade, em janeiro deste ano; em fevereiro, a Associação dos Profissionais de Imprensa em São Paulo concedeu o prêmio Oscar de Ouro Internacional dos Vencedores na 10ª edição do evento. A Eco Máquinas foi a única indústria do segmento a ser premiada, devido às suas propostas ecológicas contra o aquecimento global e em defesa ao meio ambiente.
Minha Casa, Minha Vida com energia solar
Kit completo de aquecimento solar em um milhão de casas populares para quem ganha até 10 salários mínimos. Essa é uma das especificações contidas no programa habitacional do governo federal, Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), lançado no dia 13 de abril pelo presidente Lula. O valor previsto de investimento gira em torno de R$ 34 bilhões, que virão do Orçamento Geral da União e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A redução do consumo de energia elétrica e da emissão de CO2 está entre os objetivos apontados pelo programa. Inês Magalhães, socióloga e secretária Nacional de Habitação do Ministério das Cidades, enfatiza que esse investimento sustentável fará com que os moradores utilizem uma fonte limpa e gratuita de energia, que é o sol. “A tecnologia vai se transformar em economia para os moradores, que gastarão menos em contas de luz. Por outro lado, as concessionárias de energia elétrica também serão beneficiadas, pois poderão planejar melhor a oferta de energia”, explica a socióloga.
A construção do programa foi baseada nos estudos produzidos para a elaboração do Plano Nacional de Habitação (Planhab), que foca o déficit habitacional no Brasil e os assentamentos precários e capacidades administrativas no Brasil urbano. Segundo Inês, a elaboração e implementação do PMCMV trata das dimensões econômicas e ambientais de maneira integrada. “O estímulo à utilização de fontes de energia renováveis nas futuras moradias é uma preocupação do governo federal em apresentar soluções aos efeitos nocivos das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que busca reduzir o impacto da crise econômica”, diz.
“No Brasil ainda há um foco muito grande em edifícios certificados, pouca visão na cadeia produtiva como um todo. Por um lado, temos uma demanda de muitas ações focadas em tecnologias alternativas com a participação da comunidade e, por outro, a importação do conceito de green building, ou mesmo, a adaptação da agenda de outros países por algumas organizações”, afirma Inês.
Projetos que visam à padronização e algumas soluções como aquecimento solar, aproveitamento da água da chuva e reciclagem já estão em prática no Brasil. Porém, ainda dispersas e sem política capaz de integrá-las, segundo Inês. “No governo federal podemos destacar o PROCEL EDIFICA, a obrigatoriedade da madeira certificada, o Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água (PNCDA), a medição individual da água e compras públicas sustentáveis”, conta.
No Ministério das Cidades, programas setoriais de qualidades são usados para monitorar padrões de qualidade e cumprimento das normas técnicas de produção dos materiais de construção, da redução de desperdícios de matéria prima, redução dos resíduos e melhor aproveitamento dos insumos de reciclagem. “É importante destacar que já contamos com uma legislação, ainda em fase inicial de implementação, tais como resolução do CONAMA para resíduos da construção, a lei de eficiência energética e leis de medição individual da água, que contribuem para a implementação de algumas políticas setoriais que podem resolver muitos problemas sem impactos no custo. A construção sustentável deve ser adaptável às diferentes regiões e realidades de negócio. Deve conter tarefas para todos os segmentos da cadeia e que incentive a inovação: precisamos de soluções mais radicais”, ressalta a Secretária Nacional de Habitação do Ministério das Cidades.
Críticas
O programa Minha Casa, Minha Vida é visto como inovação para alguns especialistas na construção civil. Porém corre o risco de cometer o mesmo erro de outros programas de habitação como as Companhias Metropolitanas de Habitação (COHAB). Para o arquiteto Lino Peres, ainda não está clara a política fundiária da localização em que as moradias serão construídas. "Há o perigo das construtoras colocarem as casas em qualquer lugar, em áreas precárias, e assim criar mais periferias isoladas", diz. Caso isso aconteça, a exclusão e o isolamento dessas comunidades vão contribuir para cenários que estimulam a violência, o consumo de drogas, a falta de emprego, e não a sustentabilidade, como deveria ser. Segundo Lino, outro ponto a ser criticado é a área reservada para as casas e/ou apartamentos do programa, que é de 35m2. "Dessa forma, serão reproduzidos os mesmos vícios das COHAB´s", afirma Lino. Para ele uma área ideal, que proporcione qualidade de vida a uma família de até seis pessoas, deveria ser de 50m2 a 60m2.
O engenheiro civil, Dilnei Bittencourt, diz que para não se cometer o mesmo erro, o princípio de diversidade de moradores deverá ser usado. "As moradias devem proporcionar a interligação das diferentes classes sociais e assim não criar guetos. Em vez de duas mil casas juntas, construir 50 espalhadas nas zonas urbanas, onde tenha lazer e saúde, outras 50 em outro lugar, e por aí vai", completa. Em contraponto, elogia o programa por ser “a primeira vez na história do país” que se ataca o problema de frente.
Roberto Lamberts, engenheiro civil e conselheiro do CBCS, afirma que o grande problema de construções sustentáveis é o custo inicial, e que por isso será complicado o governo colocar aquecimento solar em um milhão de casas. "Vai ser difícil, pois cada coletor solar custa em média R$ 2 mil", conta. Para Lamberts, uma casa popular deveria ser projetada, primeiramente, com os requisitos bioclimáticos locais. Todas deveriam ter obrigatoriamente venezianas nas janelas, coletor solar para fazer um pré-aquecimento da água, um chuveiro elétrico na ponta para complementar quando o sol não for suficiente, geladeira de alta eficiência, pois geralmente as pessoas com menos poder aquisitivo usam geladeiras velhas com grande potencial de energia, lâmpadas fluorescentes compactas e coletores de água da chuva, para ser usada, no mínimo, no vasos sanitários.
Marcos Casado, do GBC Brasil, diz que o programa é excelente, pois busca atender um déficit muito grande de habitações que o Brasil tem hoje. "Porém o governo não deve esquecer estes novos conceitos nas construções para não agredir tanto o meio ambiente. Deve aproveitar os recursos naturais disponíveis e baratear os custos operacionais destas construções. Estamos elaborando um guia para construção popular sustentável, o qual pretendemos apresentar ao governo", diz Casado.
O que tem na casa
•Melhor aproveitamento das condições climáticas locais (radiação solar, temperatura e umidade relativa do ar e ventos predominantes) para definição das soluções de projeto.
•Emprego de sistemas alternativos de resfriamento e aquecimento ambiental.
•Prioridade no uso de materiais locais (renováveis ou de menor impacto ambiental).
•Projeto paisagístico privilegiando o uso de espécies nativas da Mata Atlântica em vias de extinção e o uso de espécies frutíferas. Aproveitamento da vegetação para criação de um microclima local agradável.
•Uso racional de água. Instalações hidráulicas utilizando peças e linhas econômicas.
•Uso de equipamentos que promovem um baixo consumo de água (ou equipamentos economizadores de água), aproveitamento de água pluvial, tratamento de efluentes por zona de raízes e aproveitamento dos efluentes de águas cinza (de banho, tanque, máquina de lavar roupa e lavatório) após tratamento biológico.
•Integração do partido arquitetônico com sistemas complementares, tais como aquecimento solar e geração de energia fotovoltaica.
•Acessibilidade a todos os ambientes, facilitando a visitação pública.
PROJETOS E IDEIAS ECOLÓGICAS
A nova cultura de sustentabilidade já surte efeito pelo mundo inteiro. O resultado pode ser comprovado nas várias construções advindas de ideias inovadoras e que, aos poucos, se espalham pelas casas e edifícios do planeta. Confira algumas propostas e projetos prontos e em andamento.
Prédio sustentável – A empresa Dígitro Tecnologia, desenvolvedora de soluções de inteligência, tecnologia da informação e telecomunicações, inaugurou em março deste ano um prédio totalmente sustentável. A matriz da empresa fica em Florianópolis, Santa Catarina. A economia de água e energia com a reforma já gira em torno de 20% em apenas dois meses de uso. Segundo o diretor administrativo, Luiz Aurélio Baptista, todo o material usado na construção foi reutilizado e a água da chuva foi aproveitada na construção. O novo prédio de 11.400m2 possui estação de tratamento de efluentes, aproveitamento de água da chuva, células fotovoltaicas, aquecimento solar, vidros especiais (permitem que a luz penetre em todos os andares, bloqueando até 70% da entrada de calor e mais de 50% de ruído externo), além de estrutura para portadores de necessidades especiais. “Aqui, 100% das águas das descargas provêm da água da chuva. Temos uma reserva de 60 mil litros”, conta Luiz. Outro fator destacado pelo administrador é que não houve sequer um acidente durante a obra e que o respeito e a segurança aos prestadores de serviço foram priorizados. “O que fizemos hoje por opção, tenho certeza que daqui a poucos anos será feito por lei. O desperdício de recursos naturais em construções é um absurdo. É muito importante que o Brasil mude seu conceito de construção, aumentando a fiscalização por meio das leis”, diz Luiz.
Parque Viva Ciência – projeto da Universidade Federal de Santa Catarina em construir um parque no aterro da Baía Sul, em Florianópolis. Nesse parque, um planetário será levantado com critérios de sustentabilidade, propostos pela arquiteta Maria Lúcia Mendes Gobbi, responsável pelo projeto. A proposta da construção visa minimizar os impactos ambientais decorrente da obra, além de privilegiar conforto térmico com áreas verdes.
Casa solar – parceria entre seis universidades brasileiras num projeto que vai representar o Brasil no concurso Solar Decathlon Europe 2010, em Madri, Espanha. O evento foi criado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos na intenção de sensibilizar estudantes, autoridades e sociedade quanto ao uso de energias renováveis e de construções energicamente eficientes. O fomento de tecnologias limpas de construção e a luta para reduzir os custos de casas ecologicamente eficientes são prioridades no projeto. Placas fotovoltaicas, painéis térmicos, sistema de refrigeração e aquecimento foram o conjunto de estratégias para que o consumo de energia seja o mais equilibrado possível. O consórcio de universidades para o Solar Decathlon 2010 é formado pelas Universidades Federais de Santa Catarina (UFSC), de Minas Gerais (UFMG), do Rio de Janeiro (UFRJ), do Rio Grande do Sul (UFRGS), além da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Telhados verdes – As ideias não param de surgir quando o assunto é sustentabilidade. Uma casa com o telhado coberto de grama foi o que criou o arquiteto americano Mickey Muennig, em Big Sur, na Califórnia. A grama torna a casa mais fresca e a protege dos ventos. Além do verde no telhado, placas de energia solar também foram colocadas na casa ecológica. Em Chicago, o edifício da prefeitura foi coberto pelos jardins. A onda dos telhados verdes está em alta. |